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A Nativa Solitária com Luz del Fuego

23 Fevereiro 2016

Arquivo Público remasteriza o raro documentário “A Nativa Solitária” com Luz del Fuego 

DR2

“Num mundo que está progredindo dia a dia, os preconceitos continuam amarrados a um poste” afirma a capixaba Dora Vivacqua, a Luz del Fuego, na publicação “A Verdade Nua” na qual lança as bases das suas ideias sobre o naturismo. Maluca e demoníaca para muitos, libertária e genial para outros, Luz del Fuego marcou a década de 1950 e apesar das tentativas de silenciá-la – que incluíram duas internações em instituições psiquiátricas e a destruição dos exemplares do seu livro – ela atingiu o seu intento “(…) fazer-se lembrar mesmo após 50 anos”. Uma parte dessa história pode ser vista no documentário “A Nativa Solitária”, de 1954, que faz parte do acervo do Arquivo Público do Estado do Espírito Santo (APEES).

O filme foi localizado em estado de deterioração. Após ser restaurado foi encaminhado ao APEES para a sua guarda. É desconhecida a existência de alguma cópia do original, o que confere à obra uma grande relevância e raridade. O Arquivo Público, visando à ampliação do acesso e à preservação da película, realizou recentemente a remasterização do filme no Laboratório de Cinema Casablanca, em São Paulo, que fez a conversão para HD e o tratamento da imagem.

No documentário, homens e mulheres dançam e brincam nus na Ilha do Sol, o primeiro clube naturista brasileiro. A biografia “Luz del Fuego: A Bailarina do Povo”, escrita por Cristina Agostinho, Branca de Paula e Maria do Carmo Brandão,relata que o local tinha registro na Federação Internacional Naturalista da Alemanha e alcançou, em sua fase áurea, a marca de 240 sócios pagantes. Dentre eles governadores, ministros, militares de alta patente, milionários, estrelas do cinema e turistas de todo o mundo, que só podiam permanecer na ilha se estivessem completamente sem roupa.

Vida e Polêmicas 

“Amada pelo povo e odiada pelos moralistas, Luz descobriu na legenda do escândalo o caminho mais curto para a fama” destacam as autoras ao abordar a vida dessa capixaba, que dançava envolvida em cobras e emitia opiniões contundentes sobre o casamento, o divórcio e a liberdade da mulher em um período no qual, em muitos casos, o matrimônio e a maternidade eram tidos como a destinação natural feminina.

Nascida em Cachoeiro de Itapemirim, no dia 21 de fevereiro de 1917, em uma tradicional família de políticos, Luz del Fuego – o nome adotado provém de uma marca de batom argentino – desde criança mostrava-se diferente ao não aceitar as imposições a ela direcionadas. Encantou-se muito nova por um serpentário e teve a certeza de que um dia se apresentaria com cobras, o que realmente fez. A primeira delas foi uma jiboia encomendada a um fazendeiro mato-grossense. Mantinha-as como animais de estimação, soltas em sua casa, apesar de afirmar ter sofrido 120 mordidas.

As suas aparições nos teatros e circos, inicialmente no Rio de Janeiro e depois em todo o país, causavam furor. A sua inspiração veio da leitura de um livro que trazia a história das mulheres da Macedônia que dançavam com serpentes enroladas. “A primeira metade dos anos cinquenta foram os anos de Luz del Fuego. Todos conheciam a vedete que enlouquecia o Brasil (…) e ocupava frequentemente as manchetes de jornais e revistas. Fosse nas seções de espetáculos, fosse nas páginas policiais, seu nome sempre estava lá. A exótica Luz del Fuego era garantia certa de bilheteria. Principalmente nos sábados à tarde, quando a plateia era composta, em sua maioria, de fuzileiros navais, estivadores, guardas-civis e pequenos funcionários (…). Suas apresentações levavam as galerias ao delírio” destaca a biografia.

Junto com o sucesso vieram as perseguições por parte da censura e da polícia. “Acusada de atentado ao pudor, muitas vezes multada e submetida a interrogatórios em delegacias de costumes, Luz jamais se intimidava. Ia para as rádios e praças públicas denunciar as pressões sofridas”. Após intensa carreira nos palcos dedicou-se aos seus ideais naturistas. Para torná-los mais populares tentou fundar o “Partido Naturalista Brasileiro”, cujo slogan era “Menos roupa e mais pão. Nosso lema é ação”. O lançamento do partido e da sua candidatura a deputada não ocorreu, uma vez que a lista de assinatura para a criação perdeu-se em condições misteriosas que envolveram até um acidente aéreo.

Aos 50 anos e tentando reerguer a Ilha que passava por dificuldades financeiras, Luz del Fuego foi assassinada a pauladas, junto com o caseiro, por dois homens que ela havia denunciado à polícia por ações criminosas na região. O impacto que suas atitudes causaram e ainda provocam legaram, muitas vezes, a sua história ao esquecimento. Ações como a recuperação e digitalização do documentário “Nativa Solitária” vem trazer à cena a sua memória e recolocá-la no papel de destaque que possui no Espírito Santo como uma das precursoras na busca por um espaço no qual a mulher pudesse se mostrar e agir conforme as suas convicções e vontades. E ela estava ciente quanto a este aspecto: “Este país não tem memória. Duvido que o Brasil tenha tido uma estrela como Luz del Fuego”.

Por Jória Motta Scolforo

Fonte: Arquivo Público do Estado do Espírito Santo, editora N

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Equipe OS NATURISTAS